- Mas, e aí tu fazia o que da vida?
Era fim de tarde. Estava um friozinho gostoso na praia. Ele fitava a garota, sentado ao seu lado, estudando suas poucas expressões. Aliás, após a pergunta, ele não viu (nem ouviu) nada dela.
Ajeitando seus óculos "nerd", perguntou:
- Te fiz uma pergunta. E aí?
A garota era bonita, seus cabelos eram longos e iam de lá pra cá no inebriante balanço do vento. Seu sorriso parecia que exalava uma fragância. Dava vontade de ver (sentir) o seu sorriso sempre. Ela não olhava para os lados, apenas fitava o mar, como se estivesse estudando suas ondas. Sorriu, timidamente, e por fim, respondeu:
- Eu rasgava tecidos.
- Você... o que?
- Isso. Eu rasgava tecidos com facas. - Finalmente, ela virou para o lado e olhou sem sorrir para ele.
- Cara, que viagem! Desculpa, desculpa, foi mal aê o espanto. - Ele estava tentando melhorar sua conduta junto a moça.
- Não se preocupe. Já vi expressões bem mais ridiculas que as suas. - Brincou, piscando um dos olhos.
- Pô. Eu sei, eu sei. Eu sou rídiculo mesmo. - Ele sorriu, meio sem graça.
- Tsc, tsc...Rídiculo... - ela balbuciou, enquanto tirava uma mecha da frente do olho, que o vento insistia em colocar. - Deixa de ser bobo, nerd!
E riram. Ele sentia-se mais relaxado. Percebeu que a brincadeira não tinha incomodado a garota. Arriscou uma segunda pilhéria:
- Certo. Mas coitados das almas e dos sentimentos desses tecidos, né? Já pensou?! Cara, os coitados ficaram com feridas pra sempre. Objetos cortantes devem doer, hehehe. - E começou a dar risada da própria piada.
Ao ouvir aquilo, a garota ficou paralisada. Durou um milésimo de segundo. Serenou o semblante, ainda com os olhos fixos no mar e suspirou: - Eu sei que doi.
E mostrou a mão para o garoto. Sua palma e dedos eram cheios de cicatrizes e marcas. Uma lágrima estava em seu rosto.
- Eu só tinha uma faca de dois gumes sem cabo.
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu “ah nesse tempo eu era mais feliz”
Ou pensarei “ah, que tempo triste foi aquele”!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dívida de chumbo no meu coração...